Pr. Araúna Santos – Vitória,ES
Estou preocupado e apreensivo com a leitura do comportamento de alguns pastores e lideres batistas que olham para outras igrejas e denominações evangélicas com o intuito de fazer comparações em aspectos que não são fundamentalmente importantes nem de natureza espiritual. São comparações, na maioria das vezes, quantitativas e não substanciais: número de adeptos, participação em eventos, programas de rádio e televisão, presença na midia, etc.etc. Alguns pastores e líderes chegam a manifestar aparentes semelhanças com essas igrejas e comunidades que lhes servem de modelos em estilos de culto, pregação, programas musicais e até mesmo na administração eclesiástica. Percebe-se aqui e ali um ecumenismo constrangedor em práticas que desvalorizam ou desfiguram a identidade batista em matéria de eclesiologia, e outros apelos que objetivam o crescimento da membresia a todo custo.
Característica de algumas igrejas e denominações evangélicas na atualidade é a concentração de poder e autoridade administrativa nas mãos de pastores e alguns poucos líderes, que assim comandam os congregados, sem lhes conceder a oportunidade de participação ativa na dinâmica decisória de igrejas e denominacões. Infelizmente, alguns pastores e líderes batistas estão importando modelos pentecostais, assembleianos, presbiterianos ou gospels no processo de “agilizar” as decisões das igrejas que lideram ou evitar maiores discussões de propostas, abandonando, assim, o governo congregacional, sem considerarem fundamentos bíblicos que o regem. Vale destacar que a democracia, sem dúvida, é o regime mais demorado de decisão, enquanto a ditadura, por sua vez, é o mais rápido, o mais ágil.
Doutrinas e práticas batistas que nos distinguem de outros grupos denominacionais estão alicerçadas no principio bíblico da individualidade – o valor, a dignidade, a competência de cada ser humano, criado à imagem e semelhança de seu Criador, o SENHOR da Vida. Nenhum grupo religioso ou evangélico valoriza tanto a pessoa em sua individualidade como os batistas em sua compreensão do homem e da igreja. O ser humano é livre e capacitado por Deus para pensar, sentir e agir por si mesmo, sendo ainda agraciado com a presença e o poder do Espírito Santo em sua vida, mediante a fé em Cristo e a regeneração espiritual. Nenhum membro, nenhum líder, nem mesmo o pastor, é mais cheio do Espírito ou mais capacitado para decidir simplesmente pela posição que ocupa na organização administrativa da igreja. Não se pode confundir suas responsabilidades no exercício da liderança com a capacitação, não outorgada, de decidir pela igreja como um todo. Cada membro tem sua parcela de contribuição a ser respeitada. “Nossa capacidade vem de Deus”, já afirmava o apóstolo Paulo, escrevendo à Igreja em Corinto (IICo 3.12): “Não que possamos reivindicar qualquer coisa com base em nossos próprios méritos, mas a nossa capacidade vem de Deus. Ele nos capacitou para sermos ministros de uma de uma nova aliança; não da letra, mas do Espírito; pois a letra mata, mas o Espírito vivifica”. E o Espírito Santo está presente em cada crente regenerado e cada um dará conta de si mesmo a Deus.
Pelo respeito que se deve à individualidade de cada membro e à dependência do Espírito Santo, o governo de uma Igreja Batista é primeiramente teocrático, por meio da Palavra revelada, regra de fé e práticas, e. por conseqüência disso, congregacional democrático nas decisões humanas. É diferente mesmo até da democracia presbiteriana que é representativa, à semelhança do Estado brasileiro. Nas igrejas batistas cada um fala por si, responde por si, e deve ter o direito de ser ouvido, de votar, de participar das decisões de sua igreja. Com tristeza, tenho visto esse principio batista fundamental e diferencial ser posto de lado pela nova geração de pastores e líderes eclesiásticos. Quanto maior a igreja é mais fácil de ser postergado, esquecido. Quanto maior a igreja é mais fácil que ela se torne pentecostal ou presbiteriana em sua administração, quando tem no comando os que assumem sobre seus ombros toda a responsabilidade, autoridade e poder, desvalorizando a membresia
É preciso deixar de olhar para outros grupos denominacionais em seu aparente crescimento quantitativo ou modelo empresarial de administração que se fundamenta na hierarquia de posições de comando. Os valores e propósitos de uma Igreja são bem diferentes dos de uma empresa. A empresa busca o lucro, em última análise, a maximização de resultados; a igreja busca relacionamentos efetivos e construtivos de uma sólida espiritualidade e crescimento na fé mútua entre seus membros, onde ninguém e superior a seu próximo, mas um Corpo em Cristo (Rm14; I Co 12).. Já uma vez Eugene H. Petersen escreveu: “Nossas igrejas, hoje, refletem mais as estruturas eficientes do mercado e menos a glória de Deus em Cristo na vida de seus membros e lideranças” (in” Uma Investigação da Santidade Vocacional”).
É preciso buscar ser fiel ao ensino bíblico que valoriza o homem (Salmos, 8) em sua individualidade e não o confunde com multidões cegas que se submetem a líderes que as dominam e as utilizam para seus propósitos, às vezes, pouco recomendáveis. Aliás, o apóstolo Pedro adverte os presbíteros a não manterem domínio sobre o rebanho de Deus (I Pd 5.1-2). E Jesus Cristo, falando a seus discípulos sobre os governantes que exercem poder autoritário sobre as nações, ensinou claramente: “Não será assim entre vocês. Ao contrário, quem quiser ser importante entre vocês deverá ser servo...” (Mc 10.42-45). E deixou seu próprio exemplo: “Pois nem mesmo o Filho do homem veio para ser servido, mas para servir e dar sua vida em resgate de muitos”.
Há grande significado teológico, antropológico, sociológico e psicológico, além de fundamentação bíblica, no principio batista de que cada homem é livre e capacitado para as decisões de sua vida pessoal e de sua comunidade de fé, sendo ele mesmo responsável por suas conseqüências. Os membros de uma Igreja Batista se caracterizam por serem mais do que números estatísticos, financiadores de eventos com seus dízimos e ofertas e garantia de público nas celebrações. Os membros de uma Igreja Batista são pessoas salvas, regeneradas pelo Espírito Santo e, por isso mesmo, chamadas a participarem não só com sua presença e dinheiro mas também com suas idéias e propostas na realização dos ministérios da igreja a que pertencem. O Espírito Santo fala às igrejas – comunidade de pessoas – e através delas promove a honra e a glória de Deus, e não de seus líderes e pastores. Paulo afirmava aos crentes de Corinto – “porque não pregamos a nós mesmos, mas a Jesus Cristo, e a nós mesmos como escravos de vocês por causa de Jesus (II Co 4.5).
Torno a dizer, nenhum grupo denominacional religioso ou evangélico, por mais numeroso que seja, concede, em suas doutrinas e práticas, tanto valor e dignidade às pessoas de seus membros – em sua individualidade – do que uma Igreja Batista. É isso que nos diferencia e nos coloca em afinidade com Deus e Sua Palavra revelada, conforme ensinos das Escrituras, do Gênesis ao Apocalipse. Assim, vamos nos afastar da imitação de outros processos de administração eclesiástica estranhos ao Novo Testamento e permanecer firmes em nossas doutrinas e práticas que nos caracterizam séculos de história – uma linda história de cooperação voluntária entre todos os batistas – sem distinguir clero e laicado. Vamos permanecer bereanos - estudiosos da Palavra – e não atenienses – desejosos de novidades. Vamos continuar promovendo nosso mútuo crescimento pessoal rumo à maturidade emocional e cristã, cujo alvo e modelo é o homem perfeito em Jesus Cristo.
Na verdade, este é o grande desafio do ministério pastoral e das lideranças das igrejas : “apresentar todo homem perfeito em Cristo” – o propósito e a missão firmados pelo apóstolo Paulo (Cl 1.28). Ele escreveu aos crentes de Corinto: “Quando eu era menino, falava como menino, pensava como menino, discorria como menino. Quando me tornei homem, deixei para trás as coisas de menino” (ICo 13.11). O ministério das lideranças das igrejas é a edificação do corpo de Cristo, para que haja o crescimento em tudo naquele que é a Cabeça, Cristo, seguindo a verdade em amor pela justa operação de cada membro. (Ef 4.15-16). Não se pode excluir a participação do membro da igreja em suas decisões. È preciso garantir-lhe a voz e o voto, sem constrangimentos, em suas assembléias. Nas igrejas pentecostais e neopentecostais, os adeptos, que na verdade prática não são membros do corpo, são apenas chamados a sustentar financeiramente a obra. Suas idéias e propostas não são tão importantes. Os seus lideres já receberam a revelação do que fazer e como fazer, só precisam do dinheiro do povo. Não podemos importar isso para nossas igrejas batistas. Nossos membros também devem ser chamados a pensar a obra e os ministérios e os programas de sua igreja. Examine-se o capitulo 15 de Atos dos Apóstolos, entre outras Escrituras. Percebe-se ali a participação da IGREJA na decisão tomada na séria questão do legalismo dos judaizantes. Não somente os apóstolos e presbíteros foram chamados a opinar e a decidir.. Vale a pena conferir!
Em tempo de massificação e numerologias, quantificação e heresias, a eclesiologia batista supreende, já pela sua coerência bíblica e ainda mais pelo respeito à dignidade, valor e capacidade, originadas em Deus, que caracterizam sua visão do homem criado e recriado em Cristo Jesus.
POST SCRIPTUM: Batistas não são melhores nem mais perfeitos do que outros cristãos ou grupos denominacionais evangélicos. Estamos todos sujeitos a falhas e erros em nossa interpretação doutrinária e práticas. As citações neste artigo foram de natureza comparativa de modelos de eclesiologia, com fundamento no ensino bíblico (Antigo e Novo Testamentos) sobre o homem , a igreja e a sociedade.
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